domingo, 10 de janeiro de 2010

Lembranças um pouco fantasiosas

A cozinha era sempre ativa. O refogado gritava na panela quando recebia o feijão e o aroma de alho subia como nuvens de esperança e conforto.
Em cima da geladeira repousava uma generosa fruteira, coroada de laranjas, bananas e algumas maçãs. As maçãs eram menos abundantes naquele tempo, não sei se em todas as casas, mas na minha. Penso que o preço da perfumada fruta limitava sua quantidade a apenas uma para cada um, envolvidas em seu galante papel de seda azul.
O café da manhã era a alta rotatividade, regido pelos horários variados das escolas e compromissos dos habitantes. Simples: café, leite, pão e manteiga. Pão com crosta crocante e casquinha destacável, pra comer separada com muita manteiga. Depois alguns tiravam o miolo. Eu nunca tirei porque miolo é o coração do pão e nunca entendi esses fricotes.
À noite tinha mais uma refeição completa. A mesa grande da sala toda ocupada e os pratos de sopa por cima dos pratos rasos indicavam a variedade das delícias que seriam apresentadas.
Depois da sopa, o feijão fumegando o arroz branquinho, os legumes, as carnes e as saladas.
Sobremesa em dia de semana era a simplicidade da goiabada com queijo ou simplesmente a água pura com uma banana cortadinha. Meu pai comia a dele com garfo e faca. Um ritual elegante e divertido. Cortava ao meio no sentido do comprimento, abria a fruta em dois e cortava os pedacinhos que iam sumindo em sua boca. Aquilo era bonito de se ver.
No meio da tarde tomava-se café com pão fresquinho da padaria. Sempre que se tinha o privilégio de estar em casa. Essa hora me foi roubada quando entrei pra escola. Passei a sentir a ausência do meu ninho, tomando meu suco de laranja e comendo meu pãozinho murcho, tirados de dentro da merendeira arquetípica, de plástico. A garrafinha ficava com a tampa pra fora. Igualzinha à merendeira de uma boneca que eu tive. Todas as crianças tinham a merendeira igual e quase todas levavam a mesma merenda. Não havia pacotinhos de horrorosos biscoitos de isopor com cheiro de chulé. Havia a lembrança do cuidado de nossas mães, deixado impresso no corte do pão, na generosidade da manteiga e no doce do suco.
Elas ficavam lá longe, esperando a volta dos filhos da escola.
Ela, a mãe, providenciava tudo isso. E se vivia numa casa limpa, varrida e encerada, com plantas nas janelas. As roupas de cama eram trocadas religiosamente uma vez por semana e levadas, em quantidades industriais, por uma lavadeira, uma preta velha autêntica, que saia carregando uma grande trouxa, equilibrada em cima da cabeça. Era o malabarismo mais impressionante que eu presenciava na minha infância. A trouxa da Dona Maria Lavadeira.
Elas sentavam pra fazer o rol e eu me impressionava muito com essa palavra. Quer dizer que existia uma palavra especial pra designar a lista de roupas sujas que a Dona Maria levava. Não ouvia essa palavra em nenhuma outra ocasião e em nenhuma outra família. Mas na minha fazia-se o rol: doze lençóis de solteiro, dois lençóis de casal, oito fronhas, doze toalhas de banho, dez de rosto...e lá ia a Dona Maria lavar tudo isso em seu rio. Rio? Eu imaginava que sim, mas ela morava no morro, na favela, no Dona Marta. Não tinha rio nenhum também não devia ter muita água, nem muito sabão. Mas a roupa vinha lavadinha. E tinha a passadeira, a Dona Alcídia, que ficava quietinha no quarto de empregada, transformando nossas roupas lavadas em panos macios e prontos pra batalha. Muitas roupas.
Às sextas era dia de encerar o chão. Todo o chão. A casa ficava com um cheirinho mágico de limpeza e os nosso pés ganhavam um respeito temporário por aqueles tacos tão bem arranjadinhos, formando desenhos regulares. Mais cuidados, mais carinho, mais o amor de nossos pais, transformado em suporte para nossas vidas. Em tudo era o que se via. A nossa casa causava inveja nos vizinhos e nós não sabíamos de nada. Somente nos entregávamos à tarefa de existir nela e sujá-la, comê-la, dormi-la.
Tempos se foram, foram-se os pais e eu me sinto muito incapaz, com meu pequeno apartamento e apenas um filho. Talvez seja o silêncio, a solidão, a calmaria.

Um comentário:

Sophia disse...

Teca querida,

este texto lindo, este teu talento e este brilho que tem o teu espírito são a prova de que você é tudo, menos incapaz.

beijoca =*