segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Feitiço da louca


Sexta-feira é um dia estranho. Parece que todos entram num clima de “é agora! Preciso me dar bem, vou arrebentar, desestressar, me livrar do peso da semana”. Concordam?
É dia de caos no trânsito, tiroteios (mais do que nos outros dias), buzinas e pressa.
Pois o caso aconteceu na sexta passada.
Imaginem a cena. Ônibus expresso, aquele pequenininho simpático que faz a gentileza de nos levar da amada Urca ao abarrotado metrô de Botafogo. É com ar-condicionado, mas a metade dos bancos é molhada, porque o negócio refresca fazendo chover dentro. Tecnologia de última geração. Os motoristas são simpáticos e já me conhecem, reparam quando eu mudo o cabelo ou o horário.
Bem, estou muito prolixa hoje. Íamos céleres pela Rua Venceslau Brás, quase em frente ao Pinel, entram pessoas aflitas e ele não percebe uma senhora com bengala, tentando entrar. Dá uma leve arrancada e a pobre mulher começa a gritar. Gritar muito. Insulta o cara, diz que ele não tem piedade de uma deficiente, que ela está saindo do hospital, que trabalha ali, que tem três filhos, se morresse? Que era uma senhora de quase sessenta anos e como iam ficar as coisas com ela morta?
E gritava a louca. Médica do Pinel. Estava saindo do expediente. Deviam ter mandado amarrar, coitada.
Era uma mulher bonita, cabelos longos e louros, bem tratados, bem vestida e bem desequilibrada. Sério. Do jeito que ela gritava, fiquei imaginando um piripaque se armando. E o motorista tentando se desculpar e a coisa esquentando; não agüentei. Me meti. Falei que era pra seguir viagem que eu tinha que ir trabalhar. Juro. Eu, essa pastel, que até outro dia não abria a boca, fui falar isso. E logo numa sexta-feira.
A fera olhou pra mim, olhos empapuçados, terror, meu sangue gelou, mas mantive o olhar.
Está com pressa, não é, minha senhora? -(isso era comigo) Muito bem sentada aí no seu conforto, mas a senhora vai ter a minha idade e vai ser deficiente!!! - Ela disse tudo isso pra mim num jato. Me olhando com aqueles olhos injetados. Pensa que eu me intimidei?
"Devia ter ficado mais um pouco aí no hospital e tomado um calmante!" - juro que eu disse.
"Você não viu que ele quis me atropelar?"(agora eu virei “você”)- ela grita.
Eu mantendo olho no olho, resolvi bancar a louca também. Decretei:
“Eu vi tuuuuuuuuuudo!!!!”
Gente, não sei de que caverna eu tirei a voz que me representou nesta simples e curta frase. E o olhar? Valeram-me os anos de teatro, do Luiz Arthur maluco ao Torres Gonzaga na CAL, passando pelo Milton Dobbin e pelo Tuninho Reis. Fixo olhar, expressão de loucura contida, como se falasse com uma criança fazendo birra.
Funcionou. Isso me apavorou. A mulher começou a chorar. Coitada. Foi assim até o metrô e o desenrolar da história não me atraiu o testemunho.
Mas por que diabos estou contando esse caso. Por causa do feitiço. Foi o que eu senti. Ela me rogou praga. Eu neguei. Disse na hora que iria envelhecer sim, mas com saúde.
Ficou-me a pulga. Ficou-me a certeza de que, dessa vez foi definitivo. Já posso brigar com qualquer pessoa. Estou curada. Agora preciso achar a medida. E nunca às sextas-feiras.

Um comentário:

Sophia disse...

Doidos sabem captar os nossos medos direitinho... São muito sensíveis, esses doidos.
Mas são só doidos.